repete roupa!

sábado

semana 25 - o consumo na era dos blogs de moda


alguns anos da minha relação com moda e roupa foram ditados pela minha obsessão pelo programa esquadrão da moda. comecei assistindo a versão britânica, mas quando o programa foi lançado nos estados unidos eu me rendi sem volta a stacy london e clinton kelly.

é engraçado porque na época eu achava que gostava do programa porque ele embalava meus sonhos de ganhar 5 mil dólares e poder gastar tudo em roupa. com 5 mil dólares na mão, acreditava eu, eu dava um jeito no meu armário pra sempre: ia comprar tudo que faltava pra eu conseguir usar as roupas de maneira versátil, ia ter toda possibilidade de combinação imaginável, e nunca mais ia comprar nada desde então. vamos combinar que, primeiro, 5 mil dólares nem dá mais pra tanta coisa, ainda mais convertendo pra real, ainda mais indo comprar em loja de departamento que faz coleção com estilista pra poder vender jaqueta de 600 reais como "moda acessível". dicona; se você está prestes a se endividar pra comprar uma jaqueta, não é acessível e você não tá precisando (e nem podendo, diga-se de passagem). em segundo lugar, eu falhei em considerar que nossa relação com nosso corpo muda ao longo do tempo, assim como o próprio corpo, assim como nossos gostos, assim como cortes e modelagens, e é impossível nuca mais comprar roupa nenhuma pelo simples fato de que às vezes nossas mudanças internas não se refletem mais nas nossas roupas. (e às vezes as mudanças externas também não se adequam às nossas vestimentas: imagina hoje em dia a mulherada pegando busão e indo pra firma de corset? point being: é necessário renovar)

hoje penso nesse programa de outra maneira, e entendo tudo que aprendi sobre roupa, estilo e auto-estima assistindo um reality show:

segunda-feira

semana 24 - uma blusa vintage estilo bata, 6 visus urbanos


alguns anos atrás minha amiga mari postou a seguinte foto de seus pais no baile de calouros da faculdade em 1970:


na época eu tava mode full on nesse estilo mais boho, mais 70s, toda uma inspiração na nicole richie, na stevie nicks e nos visus do começo do blog le happy, e simplesmente me apaixonei pela roupa. tudo nessa foto indica que essa roupa é maravilhosa: a própria roupa, claro, o fato de o pai da mari estar de boné e isso em nada influenciar nossos olhares que obviamente não se distraem do vestido, e todos os olhares de inveja das pessoas ao fundo. eu precisava dessa roupa, nem que fosse apenas pra sentir as pessoas me olhando com inveja.

mari finalmente me emprestou o vestido, que descobri não sem surpresa ser na verdade um conjunto de blusa e saia - a surpresa se deve ao fato de eu não exatamente curtir conjuntos, e também porque a mãe da mari usou a roupa com tanta propriedade que nem parece conjunto!

vesti o conjunto diversas vezes, tentando reativar minha sensação quando vi a foto acima pela primeira vez: queria usar o conjunto pensando que ele fosse um vestido. mas no fim, sabendo que era um conjunto, achei a roupa meio caricata, meio anacrônica. ao invés de me sentir a penny lane pós-quase famosos linda vivendo em marrocos, me senti uma pessoa usando a roupa grande demais e adulta demais da mãe, sabe?


então optei por desconjuntar o conjunto e fazer duas semanas maravilhosas, uma só com a blusa e a seguinte só com a saia - o que é muito louco porque essa blusa separada da saia tem absolutamente nada a ver comigo. eu não gosto de batas - não gostava nem quando tava na minha fase hippie-chic - na pegada seventies, gosto de saias e vestidos. blusas me lembram fantasias de hippie em festinhas temáticas, e eu realmente não quero me vestir como se tivesse indo pruma festa túnel do tempo.

PORÉM estamos falando de uma blusa original de 1970, isso não é coisa pouca hein. então vamos aos visus!

sábado

semana 24 - sobre (fingir) ser cool


ontem no metrô passou por mim uma moça cool. como eu sei que ela era cool? porque as roupas que ela tava vestindo eram evidência clara. já eu, que desde a adolescência me visto pra parecer mais cool do que sou (spoiler: sou zero cool), vi aquela moça no metrô e imediatamente acinzentei por dentro. eu tava vestindo uma das minhas saias preferidas (a plissada azul que usei aqui na semana 21) e uma blusa de 1977 que pertenceu à mãe da minha amiga mari e está temporariamente emprestada pra mim.

vejam bem, não quero desmerecer minha saia nem a blusa vintage - nem o casaco de veludo que vesti por cima quando esfriou - mas acontece que minha roupa não tava cool. eu tava trabalhada nos tons de azul, então minha roupa tinha uma coordenação cromática agradável. eu tava usando texturas diferentes e estampa em uma das peças, então a roupa tinha interesse visual. a roupa tinha proporções certas pro meu tipo de corpo, o que causou aquela ilusão de ótica que a gente ama de cintura no lugar, pernas alongadas e tronco proporcional. pohan, gemt, só o fato de uma das minhas peças de roupa ser de 1977 já é incrível mesmo se todo o resto estivesse errado.

PORÉM eu não estava cool. elegante? possivelmente. estilosa? sem dúvidas. ciente do meu corpo e de como vesti-lo? acredito que sim. mas obviamente eu não tava cool. a blusa vintage, com corte dos anos 70 (manga sino, um quê de yves saint laurent, uma certa inspiração na bata hippie), tinha essa pegada boho-chic que não é mais cool há pelo menos uns 4 anos, acho eu - o cool agora é se vestir com a pegada urbana: as calças curtas da moda, tênis esportivos (preferencialmente brancos), jaqueta estilo bomber ou reminiscente dos windbreakers coloridos dos anos 90. esse é o uniforme cool, quase uma mistura da moda fresh prince of bel air com o normcore de uns anos atrás. (a não ser que você seja uma garota-farm, aí tá permitido o look estudante de humanas superfaturado e as fotos no instagram com bastante saturação e contraste).

segunda-feira

semana 23 - uma echarpe dourada que virou saia que virou blusa que virou chale em 6 visus bonitões


tudo começou na semana 22, quando eu planejei todos meus visus baseada em um par de sapatos. turns out que ficou tudo coerente, com paleta de cores, conceito das roupas parecido, tudo como dita o manual da moda minimalista de armário cápsula. eu sou lá molier de ficar se vestindo de acordo com bom senso estético? ah mas não sou mesmo, então pra desordenar um pouco a semana decidi usar essa echarpe dourada como saia em dois visus que destoaram completamente do resto da semana. e, honestamente, foi a saia mais linda que usei em muito tempo.

isso me inspirou MEGA a fazer uma semana-echarpe, e eu tentei variar os usos tanto quanto deu - lembrem-se que cada echarpe é uma echarpe, e a que eu usei tem um certo tamanho e um certo tipo de tecido, então a possibilidade de usos e amarrações não é infinita. com uma echarpe um pouco maior e de tecido mais molinho, dá pra passar o mês inteiro sem repetir amarração, e isso não é uma hipérbole - dá inclusive pra levar aquela canga mara na viagem pra praia e cada dia ter uma saída de banho diferente. pretendo em breve (provavelmente quando o calor decidir voltar a abençoar minha vida) fazer mais uma semana echarpe, com muito mais possibilidades de uso.


a botinha da semana 22 segue aparecendo em muito visus - porque tá frio e é o único par de botas que eu tenho no momento (mas descobri, ao usar tantas vezes seguidas, que essa bota não é a melhor opção pra dias de chuva) - e sinto que com a chegada do inverno tô usando menos muitas roupas que eram campeãs por aqui (a saia florida da semana 2, por exemplo) e tô elegendo outras roupas como minhas companheiras de reprise. é o tal do armário cápsula sem o esforço todo de escolher as 30 peças de roupa, esconder o resto, reavaliar tudo depois de 3 meses.... me parece natural que com o mudar das temperaturas a gente vá mudando as roupas que usa com mais frequência, né? o importante é sentir que a gente tem roupas apropriadas pra temperaturas diferentes e gosta de usá-las - não adianta ter 30 casacos e odiar todos, ou não conseguir combiná-los com o resto das roupas, assim como um armário em que você só tem roupas pra uma única estação também não é lá muito funcional. quando a gente consegue usar todas as roupas que temos, não importa muito a quantidade.

masssss vamos aos visus, que a echarpe é dourada e tá tudo uma riqueza



sexta-feira

semana 23 - a política do vestir


lembro de dois momentos das minhas aulas de jornalismo de moda na pós:

em primeiro lugar, a professora - jornalista experiente de moda - que insistia em chamar a grande tendência de 2014, normcore, de "os normdroms".

em segundo lugar, um rapaz que entrevistei pras aulas da mencionada professora normdroms, que nos pediu a produção de um vídeo curto sobre moda de rua. esse rapaz era um dos presentes numa batalha de rap na av. paulista, tava lá pra assistir os amigos e curtir a náite, e mesmo se eu o encontrasse no restaurante do terraço itália comendo um, sei lá, escargot, eu saberia instantaneamente que ele era um ouvinte de rap. a roupa que ele vestia era quase um uniforme do rolê, a calça mais larga, a camiseta solta, o moletom de capuz e o boné de aba reta (com grandes fones de ouvido encaixados por cima). ele afirmou veementemente que não pensava no que ia vestir e não queria transmitir mensagem nenhuma através de suas roupas - estava vestido daquela maneira porque era como ele gostava de se vestir, e fim.

segunda-feira

semana 22 - um par de botas de cano baixo, 6 visus pra acompanhar


bom, gente, já falei algumas vezes aqui que matilda comeu umas das botas do meu par mais maravilhoso, resistente, confortável e combina com tudo, me deixando apenas com um par de botas de oncinha cuja sola tá mais fina que uma fatia de queijo e provavelmente não vai durar muito. então, seguindo inclusive uma premonição que tive lá na primeira semana, juntei minha graninha e minha coragem, entrei no enjoei e achei um par de botas pra chamar de meu.

vejam bem, gente, eu calço 33. a seleção de calçados dessa numeração em lojas já não a coisa mais cheia de possibilidades, no enjoei então.... acreditam que comprei DUAS botas antes dessa e recebi emails das donas dizendo que a numeração era na verdade 36 e o anúncio tava errado? talvez elas só não quisessem vender pra mim. e aí achei uma outra, que não amei porque é da melissa (sapato de plástico, gente, o mínimo que eu espero é que seja barato, já que plástico é uma merda. e pra todo mundo que usa melissa dizendo que é vegan: plástico é feito do quê? amor? e a merda ainda deixa o pé fedido. vocês me desculpem mas esse hype todo da melissa me dá pre-gui-ça), mas o design era bonitinho, a cor era bacana, e era do meu tamanho. custava 60 reais e claro que alguém comprou enquanto eu ficava me perguntando se devia investir dinheiro num sapato de plástico de uma marca que acho uó (mesmo que eu não fosse dar dinheiro pra marca diretamente, toda vez que eu usasse as botas meus pés estariam lá, fazendo publicidade de sapato de plástico over-priced). aí achei um segundo par, idêntico, só que a moça bacana queria vender por 190 reais????? gente? alguém explica pra essa galera que não dá pra vender roupa usada com preço de nova? quando mandei mensagem dizendo que o sapato estava mais caro do que os modelos novos sendo vendidos nas lojas da melissa, a dona me fez um incrível desconto de DEZ MICHELZINHOS. ah tá, agora fiquei afim de comprar esse sapato usado que custa mais caro que sapato novo.


eis que encontrei essa belezinha cor de vinho por um preço que achei justo tanto pra mim quanto pra vendedora, e gente, não sei se foi o cold-turkey desse ano sem compras, mas foi uma compra tão gostosa de fazer. foi uma sensação boa de ter investido em algo que eu tava realmente precisando, misturada com alegria do precinho camarada, intensificada pelo coração quentinho de não ter dado dinheiro pra grandes corporações, e tudo isso se completou porque achei a bota maior bonitinha - diferente do que eu queria quando comecei a procurar, mas no fim ideal pra mim nesse momento. 

aí fiquei tão empolgada pela minha compra ~~de menina~~ que fiquei com vontade de usar a bota todo dia. e, né, sendo esse blog o que é, nada mais natural que eu realmente fosse lá e usasse a bota todo dia. foi legal porque de certa maneira eu meio que não repeti roupa essa semana - mas fiz questão de repetir, sim, alguns itens, e manter uma paleta de cores meio equilibrada tipo armário cápsula. também foi legal porque pensar nas roupas a partir do sapato me deu uma outra perspectiva sobre me vestir: pensei principalmente em cores que se equilibrariam com o roxo das botas (e foi assim que cheguei na paleta de cores que mencionei), e aí os visus ficaram tão coerentezinhos, tão uma mini coleção criada com peças exclusivas do meu guarda-roupa.... que tive que quebrar essa coesão toda na segunda e no sábado, porque ninguém merece repetir os mesmos conceitos e cores todo dia, né, gente.

mas vamos aos visus que tá bom, tá bacana, tá bonito!

sexta-feira

semana 22 - dicas de estilo pra quem não acredita que aparência é tudo


é muito louco essa coisa de gostar de roupa. por um lado, é um universo fútil, superficial, voltado pro consumo desenfreado de porrinhas inúteis que a gente não vai mais querer daqui alguns meses, focado em imagem, aparência e poder aquisitivo. ao contrário das meninas superpoderosas, esse mundo das roupas é feito de tudo que há de ruim.

por outro lado, quando a gente é confrontado com algo que somos obrigados a usar todo dia, e que já virou segunda natureza (apesar de, né, não ter nada natural nisso), é muito difícil não querer compreender mais - quais são os mecanismos sociais que fizeram moda virar o que virou? se a função da roupa é puramente prática (nos proteger de intempéries naturais) e social (cobrir nossas ~~vergonhas~~ numa sociedade formada em bases cristãs punitivas), por que não existe apenas um modelo de roupa padrão pra todo mundo? aí entra também o capitalismo e como ele funciona, claro, porque o modelo capitalista não existe se a gente não trocar nossa moeda por bens e coisas, e a gente só quer fazer isso se existe algum bem ou coisa nova, afinal, não vou comprar o que já tenho, e por isso o tempo todo são criados novos modelos de tudo: roupas, sapatos, celulares, eletrodomésticos, cinzeiros, copos, tudo. assim a gente tem motivo pra continuar comprando e fazer a ~~roda da economia girar~~.

deu no que deu e estamos aqui, vivendo numa sociedade em que a gente morre de medo de "crises econômicas" e pensa que a humanidade vai ser extinta se a gente comprar menos e, consequentemente, produzir menos (newsflash: o que vai ser extinto são as grandes corporações e os homens sujos e gananciosos que as comandam). mas isso é papo pra outro post, porque hoje tô aqui pra falar de como roupa pode ser, também, nada fútil.