repete roupa!: semana 4 - pra quem diz não gostar de moda

sexta-feira

semana 4 - pra quem diz não gostar de moda

é curioso voltar pro lookbook agora mais velha com um olhar muito menos do consumo e muito mais do de ver estilo genuíno de gente ao redor do mundo. o lookbook é cheio de blogueiros famosos que tiram fotos montadíssimas com roupa que ganham de loja, mas também dá pra achar coisa muito legal.

eu lembro que quando trabalhava no escritório da minha mãe, quando eu tava meio sem tarefas eu ficava vendo o hel looks. eu ficava fascinada com aquilo tudo, amei sacar que a gente pode mesmo ser criativo pra se vestir, querer expressar algo pessoal através da roupa. tinha muita coisa que eu não gostava, muita coisa que eu tentei imitar sem sucesso, mas o que era legal era a genuinidade do negócio.  e eu adorei que todo mundo fala sobre o que veste, afirma que aquilo significa alguma coisa, não fica com o mimimi de "não me importo com moda" "não ligo pra roupa". até a pessoa mais básica liga pra roupa, foi o que o hel looks me ensinou.

quando fiz a pós uma professora recomendou um livro chamado o casaco de marx. eu, comunistinha da fflch que sou, comprei imediatamente. o livro conta sobre o casaco que marx penhorava - vejam bem, seu único casaco, na época um bem valioso, algo que se guardava por anos, décadas, e se passava de geração em geração - para que pudesse se sustentar enquanto pesquisava para sua grande obra o capital. enquanto o casaco estava no penhor, marx passava longos períodos sem acrescentar nada à sua pesquisa e à sua obra. durante esse meio tempo, ele pegava "bicos" escrevendo aqui e acolá, dando uma ou outra aula, até conseguir dinheiro o suficiente pra poder recuperar seu casaco, pois que então voltava a escrever o capital. por que essa loucura, vocês podem se perguntar. vejam bem, amigos, karl marx não podia entrar na biblioteca, um lugar honrado, venerável, apenas de camisas. ele precisava do casaco pra seguir o status quo das regras sociais e poder entrar na biblioteca como um homem educado.



se até karl marx, minha gente, que foi quem foi, se importava com moda, quem somos nós pra descartarmos a moda e as roupas como algo sobre o qual nós não temos que fazer uma escolha toda manhã.




acho que é no documentário de wim wenders sobre yohji yamamoto, a notebook on cities and clothes, que se mostra uma fotografia, acho que do fim do século XIX ou do começo do século XX, em algum país gelado do leste europeu, de uma garota, uma adolescente, agasalhada com um magnífico casaco de inverno azul, com bordados de flores nas costas. yamamoto comenta sobre o fato de esse provavelmente ser o único casaco que essa menina vai ter na vida, ele vai durar até a morte dela, e isso faz o casaco caber nela e parecer nela ideal. como se aquele estilo pertencesse àquela garota, como se ela tivesse escolhido aquele casaco como quando vamos à zara e escolhemos qual é o melhor casaco pra gente, qual combina mais, qual é o do nosso estilo. yohji diz que enquanto continuarmos descartando nossas roupas continuamente, comprando coisas que só vão ser usadas naquela estação e depois jogadas fora porque estragaram, ou porque não estão mais na moda, jamais encontraremos nosso estilo real. o estilo, diz ele, está em ter peças de roupas que nos acompanham durante a vida, que representam nossa história, que passam a ser, de alguma maneira parte de nós.

hoje vi essa foto no lookbook, e achei as cores, a silhueta, a atmosfera, muito parecidas com essa foto do documentário de wim wenders:


no mesmo livro sobre o casaco de marx, o autor peter stallybrass conta sobre a jaqueta de couro que um amigo lhe deixou de herança quando faleceu. ele diz que enquanto dava uma palestra vestindo a jaqueta, de repente começou a notar todas as marcas do casaco, os lugares que estavam desgastados, as dobrinhas, todos os sinais que seu amigo havia deixado na peça de roupa, todos indícios de sua vida. stallygrass escreve que nesse dia percebeu o significado que as roupas tem pra gente, como elas contam uma história pessoal e também sobre a sociedade, uma história da humanidade, a nossa história.

quando alguém afirma que não se importa com moda, está esquecendo de todas as maneiras que a moda está entrelaçada com nossa vida. roupas fazem parte das nossas escolhas diárias, e viraram segunda natureza de tal jeito que automatizamos as escolhas até nos esquecermos de que são, sim, escolhas ativas, que demandam nosso dinheiro e tempo e sem as quais não podemos viver em sociedade.

quando eu começar a ver gente pelada por aí dizendo que não liga pra moda, aí eu vou acreditar.


“I like to wear lots of color, lace and rebel. 
Every time you dress up, you got to think 
about a revolution of some kind.

3 comentários:

eliane percino disse...

Muito bom, Melody!

Beatriz disse...

Dois pensamentos: 1. Se o negócio é ter as mesmas roupas durante muitos anos e não comprar muitas coisas novas, estou no caminho certo. Tenho roupas que uso desde os 15 anos e não consigo me desfazer. Até agora achava que era uma falta de vergonha na cara, mas percebo que é como você disse: são um pedaço da minha identidade. Fiquei feliz de saber disso. 2. Quando você falou sobre o "não me importo com moda" lembrei daquela cena de O diabo veste Prada em que a Miranda dá uma voadora na estagiária falando sobre o suéter azul de loja de departamento que ela estava usando e como ele não existiria se não fosse estilista X lançar aquela cor é aquele modelo e tals. Hahahahaha. Amei.

Erica disse...

Mto legal o texto mel! Combina com algo q eu tenho pensado: como sempre tive mta roupa mas desde sempre a gde maioria das minhas roupas eram de outras pessoas antes. Eu ganho todo semestre um saco de roupas da minha madrinha q nao qr mais, às vezes da tia, roubo rouoa das amigas direto (cuidado comigo), e às vezes troco. Sempre percebo q acumulo roupa, oq qro fazer menos, mas minhas roupas muitas vezes ja vem com historia... acho isso legal