repete roupa!: semana 22 - dicas de estilo pra quem não acredita que aparência é tudo

sexta-feira

semana 22 - dicas de estilo pra quem não acredita que aparência é tudo


é muito louco essa coisa de gostar de roupa. por um lado, é um universo fútil, superficial, voltado pro consumo desenfreado de porrinhas inúteis que a gente não vai mais querer daqui alguns meses, focado em imagem, aparência e poder aquisitivo. ao contrário das meninas superpoderosas, esse mundo das roupas é feito de tudo que há de ruim.

por outro lado, quando a gente é confrontado com algo que somos obrigados a usar todo dia, e que já virou segunda natureza (apesar de, né, não ter nada natural nisso), é muito difícil não querer compreender mais - quais são os mecanismos sociais que fizeram moda virar o que virou? se a função da roupa é puramente prática (nos proteger de intempéries naturais) e social (cobrir nossas ~~vergonhas~~ numa sociedade formada em bases cristãs punitivas), por que não existe apenas um modelo de roupa padrão pra todo mundo? aí entra também o capitalismo e como ele funciona, claro, porque o modelo capitalista não existe se a gente não trocar nossa moeda por bens e coisas, e a gente só quer fazer isso se existe algum bem ou coisa nova, afinal, não vou comprar o que já tenho, e por isso o tempo todo são criados novos modelos de tudo: roupas, sapatos, celulares, eletrodomésticos, cinzeiros, copos, tudo. assim a gente tem motivo pra continuar comprando e fazer a ~~roda da economia girar~~.

deu no que deu e estamos aqui, vivendo numa sociedade em que a gente morre de medo de "crises econômicas" e pensa que a humanidade vai ser extinta se a gente comprar menos e, consequentemente, produzir menos (newsflash: o que vai ser extinto são as grandes corporações e os homens sujos e gananciosos que as comandam). mas isso é papo pra outro post, porque hoje tô aqui pra falar de como roupa pode ser, também, nada fútil.



a roupa que estamos vestindo é nossa narrativa pessoal diária. a história de quem eu sou hoje tá aqui, no meu look. e tem gente, como eu, que gosta de pensar na história que vai contar cada dia, mas também tem gente que não pensa nisso, gosta de tirar duas peças de roupa do armário e vesti-las sem muita filosofia ou perda de tempo. e tudo bem, cada um se interessa pelo que quer e investe seu tempo no que quer. mas quando a gente começa a enxergar roupa para além da futilidade, dá pra se apropriar dessa mania que todo mundo tem de enxergar só aparência e usar isso a nosso favor.

não tô dizendo que é legal viver num mundo em que a maior parte das pessoas tá interessada na minha aparência e na aparência das minhas roupas antes de se interessar por quem eu sou, por como eu penso, pelas minhas habilidades e talentos, nem que a gente não deva lutar contra isso. cada um luta da sua maneira - eu não uso maquiagem, sutiã ou produtos para o cabelo. tem gente que luta simplesmente escolhendo um uniforme, que pode ser jeans e camiseta, e se recusando a se importar com moda, com shopping, com compras e com roupa. tem gente que só usa roupa usada, que ganhou de presente ou doação, tem gente só usa roupa esdrúxula, ou que adota uma estética alternativa underground.... tudo isso pra gente resistir um pouquinho, tudo isso pra gente tentar dizer, em silêncio, o que tá por dentro vale mais do que o que tá por fora. mas não é curioso que até quem não se importa com aparência consegue dizer isso claramente..... através da aparência?

é impossível se desassociar da moda (falei um pouquinho disso nesse texto) porque a gente é simplesmente obrigado a se vestir. e por sermos obrigados a isso, também somos obrigados a ter roupas, o que significa comprá-las, o que significa fazer uma escolha. abrir o armário toda manhã também é fazer uma escolha, e mesmo que sua escolha seja ter 10 camisetas iguais e 2 jeans (pra, exatamente, evitar escolhas), isso ainda é uma escolha. você teve que decidir que roupas teria e usaria, você teve que usar seu dinheiro para adquiri-las, e nada disso é passivo por mais que a gente queira acreditar que é. são escolhas de moda. é a gente participando voluntaria ou involuntariamente da indústria da moda. quem assistiu diabo veste prada deve lembrar com emoção do discurso de miranda (meryl streep DIVA), que apenas OMILHOU a estagiária andy em seu desprezo por moda.

então quando alguém diz que não se importa com moda e aparência, isso é sempre uma contradição gigante. porque pra mostrar que a gente não se importa a gente tem que escolher uma aparência que demonstre que a gente não se importa, e isso é se importar. ou não? eu tenho que escolher não pintar, alisar ou cortar o cabelo, e essa escolha me faz, necessariamente, atuante dos processos de moda e aparência.

acontece que quando a gente pode e tem as ferramentas pra construir nossa aparência, ela sempre vai dizer algo sobre a gente. e dá pra gente se apropriar dessas ferramentas e usá-las pra mostrar qualidades nossas, mesmo que a gente não se importe com moda. tomar cuidado com os detalhes do que a gente veste - mesmo que seja o supracitado conjunto de jeans e camiseta - causa impressões, e é por isso que tem dicas e mais dicas pela internet a fora de como se vestir pra entrevista de emprego, pra ir no almoço elegante, pra trabalhar em escritório/home office/agência/etc. não é porque quando a gente se veste pra eventos específicos precisamos pensar só no que o outro quer ver e esquecermos da nossa personalidade. mas é, precisamente, porque sabemos que o outro quer ver certas coisas, e podemos ajustar nossa aparência pra transmitir as coisas certas.

o fútil, na moda, é essa coisa de comprar o tempo todo, sem raciocínio, sem resistência, apenas cedendo aos desejos criados pelas marcas e propagandas. o fútil é se endividar a procura de looks perfeitos e ideais, que parecem nunca existir dentro do nosso armário. fútil é acumular roupas, sapatos, bolsas, maquiagens que não usamos, pra criar um inventário do que podemos ostentar pro mundo lá fora.

pensar na sua aparência, pensar em como você vai se apresentar para o mundo, não é fútil. a fran lebowitz disse numa entrevista que só pessoas muito bonitas tem o privilégio de não exercer essa tal de "futilidade" que é se vestir bem. só gente que tem o privilégio de ter nascido com a aparência certa pode não se dar ao trabalho de criar a aparência certa. e que ainda assim, se pensar na sua roupa e tentar se vestir bem é fútil, é uma futilidade que representa atenção ao detalhe, inteligência estética, poder de escolha, consideração pelo que o outro vai ter que olhar quando olhar pra você, criatividade, personalidade.... todo um conjunto de qualidades admiradas no mercado de trabalho e, sinceramente, na vida.

então, quando a gente veste um jeans e uma camiseta, mas se atenta a detalhes como dobrar a manga da camiseta, dobrar a barra da calça, adicionar um lenço, cinto, broche, a gente continua básico, continua mantendo a decisão de não cair nas tentações fúteis da moda, mas demonstra coisas a mais: demonstra capricho, demonstra que a gente tá atendo a detalhes que fazem a diferença, que a gente presta atenção no que veste e em como veste. quem se atenta ao detalhe na roupa faz-se notar: se eu capricho no jeans e na camiseta, se eu crio elementos na minha roupa básica que demonstram que meu olhar é atento e treinado esteticamente, se eu me atentei a dobrar a manga da minha camiseta, não parece claro que eu vou também me atentar aos detalhes do meu trabalho, seja ele qual for? uma pessoa que cuida dos detalhes de sua roupa, que parece ver que detalhes importam, não está passando a mensagem de que ela vai, também, se atentar melhor e detalhadamente a como ela vai atender o telefone, receber algum um cliente, escrever um email ou produzir uma peça publicitária, organizar uma planilha no excel, gerenciar ou revisar o trabalho de uma equipe.... se sua aparência denota desleixo, fica implícito que sua postura na vida é desleixada - e se não for, você vai ter mais trabalho pra convencer os outros disso.

então roupa é, sim, nossa narrativa diária. o que quer dizer que eu posso, claro, usar caça jeans e camiseta todo fucking dia da minha vida, mas que eu vou prestar atenção à mensagem que essa roupa tá passando, e vou alterar algum pedaço ou outro do vocabulário pra me adequar ao recipiente da mensagem (e aproveitar pra mandar junto umas mensagens subliminares). moda pode ser fútil, mas atenção ao detalhe não é.

e pra agradar a gregos e troianos, aqui uma coletânea dos meus truques pra demonstrar atenção ao detalhe, truques que dá pra usar com a versão mais básica de jeans e camiseta ou a versão mais frufruzenta de um vestido rodado


  • vai de camiseta basicona? dobra a manguinha! isso dá uma enfeitada no visual sem apelar pra acessórios, além de deixar com uma carinha de mais ajustada ao corpo e menos desleixada. E/OU dá um nózinho! assim você cria diferentes silhuetas, e mostra que consegue criar a partir da simplicidade.
  • vai de calça? se não for boca-de-sino ou pantalona, dobra a barra! o tornozelo é uma das partes mais finas do nosso corpo, e deixá-lo de fora não apenas cria uma ilusão de afinamento, mas também evita uma aparência desleixada de quando a calça fica engruvinhada no sapato lá em baixo. além disso, cria uma vibe retrô, o que demonstra que você além de tudo manja das referências antigas.
  • vai de cinto? dá um nó e/ou põe a fivela pro lado! isso mostra que você consegue dar personalidade a um item simples, pensando "fora da caixa". ou que tal trocar por um lenço colorido? você vai ter o carimbo "mulher versátil" estampado no visual, além de demonstrar criatividade. também serve pra criar interesse em roupas de uma peça só, tipo vestidos ou macacões, e mostrar que nas suas mãos até o mais prático pode ter um toque especial

também vale: amarrar um lenço ou prender um broche na bolsa; colocar broche na sua lapela ou até direto na camiseta (não tem broche? pega um brinco bacana e põe na blusa!); fazer sobreposição com croptop básico por cima de vestido (assim não aparece a barriga mas dá um toque diferente à roupa).... a última fromteira é seu guarda-roupa!

Um comentário:

Beatriz disse...

Oi, Melzinha! Fazia tempo que não passava por aqui, mas como é sempre delicioso voltar! Que texto incrível!

Ontem mesmo estava passeando pelos Jardins, lugar que nunca frequento. Passando em frente a uma loja dessas que não tem preço na vitrine, logo, fortunosa, virei pra minha amiga e comentei: se tem uma coisa com a qual não me importo é moda. Eeeeeis que venho aqui e quebro a cara. Hahahaha...

O que você disse faz todo o sentido, estou impressionada como nunca tinha parado pra pensar nisso. Rs.

E uma das cenas mais marcantes pra mim em O Diabo veste Prada (AMO!) é aquela em que a Miranda acaba com a Andy falando sobre o suéter azul. <3

Vou tentar recuperar as leituras perdidas. Cada post é sempre uma alegria.

Saudade, amore. <3
Beijão.