repete roupa!: semana 23 - a política do vestir

sexta-feira

semana 23 - a política do vestir


lembro de dois momentos das minhas aulas de jornalismo de moda na pós:

em primeiro lugar, a professora - jornalista experiente de moda - que insistia em chamar a grande tendência de 2014, normcore, de "os normdroms".

em segundo lugar, um rapaz que entrevistei pras aulas da mencionada professora normdroms, que nos pediu a produção de um vídeo curto sobre moda de rua. esse rapaz era um dos presentes numa batalha de rap na av. paulista, tava lá pra assistir os amigos e curtir a náite, e mesmo se eu o encontrasse no restaurante do terraço itália comendo um, sei lá, escargot, eu saberia instantaneamente que ele era um ouvinte de rap. a roupa que ele vestia era quase um uniforme do rolê, a calça mais larga, a camiseta solta, o moletom de capuz e o boné de aba reta (com grandes fones de ouvido encaixados por cima). ele afirmou veementemente que não pensava no que ia vestir e não queria transmitir mensagem nenhuma através de suas roupas - estava vestido daquela maneira porque era como ele gostava de se vestir, e fim.


achei curioso porque é claro que ele estava vestido do jeito que ele gostava, não há dúvidas sobre isso, mas a falta de consciência sobre seu próprio ambiente e o estilo predominante nele me pareceu completamente incoerente. eu estava lá, no meio de um monte de gente envolvida com o mundo do rap, que costuma retratar temáticas de importância social e política, ou seja, rodeada de gente que, imagino, se envolve, pensa, discute e analisa questões sociais como representatividade étnica, distribuição de renda, qualidade de vida dos bairros periféricos de são paulo, violência policial, ou seja, gente que pensa e que vai além. mas mesmo assim, moda passava por esse rapaz como algo fútil, desconectado da realidade social e, inclusive, desconectado da "tribo" com a qual ele se identificava - e a gente sabe que o maior sinal de pertencer a uma tribo é seguir um dresscode.


outras pessoas que entrevistamos na batalha de rap disseram, quando perguntadas sobre meninas que gostam de shopping e de compras, que essas moças eram "padronizadas" e que seguiam propagandas sem se questionar. curiosíssimo, já que ao nosso redor dava pra notar, também, uma clara padronização das roupas, e não estávamos num shopping. as meninas que entrevistamos dentro dos shoppings, por outro lado, pareciam estar mais cientes de que as roupas que vestiam transmitiam mensagens, e procuravam escolher elementos que as diferenciassem, que as deixassem menos óbvias. elas falaram apenas da influência que nossos gostos pessoais - músicas, lugares que frequentamos, etc - tem no que vestimos e disseram que a moda é uma expressão cultural. nenhuma delas chegou a mencionar o poder social da roupa, mas me pareceu que elas já estavam um passo a frente do que a galera que tão prematuramente as chamou de padronizadas sem sequer olhar ao redor.

tudo isso eu contei pra ilustrar algo que sigo comentando nos meus textos aqui no blog: moda não é fútil. moda, sabemos, é uma representação clara de instâncias sociais como gênero, poder aquisitivo, idade, orientação sexual, etnia, nacionalidade, religião, repertório cultural, e quando nos desassociamos da moda e a categorizamos como fútil, estamos também recusando um olhar interior atento, e uma reflexão sobre a posição que ocupamos na sociedade. roupa é, para além de tudo, política - ainda mais se pensarmos que pessoas são estereotipadas, objetivadas, violentadas, atacadas, ridicularizadas e assassinadas por causa de suas roupas, seja uma minissaia ou uma burca.



quando ouvimos falar que nossa roupa é nossa identidade, não é só no sentido de que a roupa reflete nossos gostos, preferências e humor. roupa é, mesmo, nossa identidade social. não é coincidência que a parcela da população que mais se beneficia do privilégio de não se importar com roupa são aqueles que tem sua posição social mais estabilizada: homens. normalmente héteros. normalmente brancos. homens brancos héteros não apenas podem viver sem pensar em roupa, eles podem literalmente passar a vida se vestindo como uma criança de 12 anos, e ninguém os julga. quase toda pessoa branca do gênero masculino (cis, claro) dos 8 aos 60 anos se veste do mesmo jeito. parece ridículo chamar isso de privilégio - porque taí um privilégio que eu não quero pra mim, o de usar roupas feias a vida inteira - mas é o que é.

cada vez que você se veste e não precisa pensar se vai ser assediada no caminho pra faculdade, significa que você tem um privilégio - seja o de ser homem, seja o de viver e estudar em uma região onde você se sente segura. cada vez que você se veste e não precisa se preocupar com o que os outros irão cochichar sobre sua roupa, isso é um privilégio - seja o de ser homem, seja o de ser uma pessoa apreciada por seu estilo a ponto de não precisar se preocupar. cada vez que você se veste sem precisar decidir se aquela roupa te valoriza, se te faz parecer gorda, ou baixa, ou vulgar, significa que você tem um privilégio - seja o de ser homem ou de estar de acordo com padrões de beleza. poha, gemt, até trabalhar em ambientes que permitam que eu me vista da maneira que vocês vêem retratada nesse blog é um privilégio.

moda é política. e é nossa responsabilidade passar a ver a moda sob esses olhos, e não apenas com as lentes das tendências de consumo. moda serve pra desafiar discursos dominantes, padrões de beleza e estereótipos. quando falamos de moda feminina, que é tão facilmente dominada pela imagem de corpos, bocas, cabelos perfeitos e tendências efêmeras, roupa deve servir pra nos lembrar de que nosso corpo é importante, merece ser valorizado e considerado bonito por nós mesmas, e nós temos as ferramentas para fazer isso - seja usar maquiagem, pintar a unha ou usar um par de sapatos que consideramos magníficos.



(todas as imagens desse post são de roger minick, de sua série sightseeers, em que ele fotografou turistas durante os anos 80. as pessoas e vestimentas retratadas nas fotos em nada tem a ver com meus posicionamentos - achei as fotos maravilhosas e quis usá-las porque acho que as roupas retratadas representam muito bem quem essas pessoas são, de que época são, que tipo de vida tinham, e isso ilustra muito bem o que eu quis dizer - moda é nossa identidade social)

2 comentários:

Anônimo disse...

O texto e as fotos estão magníficos.
Seu blog está cada vez melhor.
Parabéns!

Anônimo disse...

Nussa, olha a cena do casaquinho azul da Miranda again.
Arrsou, Melzinha! Que reflexões incríveis! <3

Esse parágrafo dos privilégios, MEO DEOS. X__X

Beijocas.

Bia