repete roupa!: semana 25 - o consumo na era dos blogs de moda

sábado, 24 de junho de 2017

semana 25 - o consumo na era dos blogs de moda


alguns anos da minha relação com moda e roupa foram ditados pela minha obsessão pelo programa esquadrão da moda. comecei assistindo a versão britânica, mas quando o programa foi lançado nos estados unidos eu me rendi sem volta a stacy london e clinton kelly.

é engraçado porque na época eu achava que gostava do programa porque ele embalava meus sonhos de ganhar 5 mil dólares e poder gastar tudo em roupa. com 5 mil dólares na mão, acreditava eu, eu dava um jeito no meu armário pra sempre: ia comprar tudo que faltava pra eu conseguir usar as roupas de maneira versátil, ia ter toda possibilidade de combinação imaginável, e nunca mais ia comprar nada desde então. vamos combinar que, primeiro, 5 mil dólares nem dá mais pra tanta coisa, ainda mais convertendo pra real, ainda mais indo comprar em loja de departamento que faz coleção com estilista pra poder vender jaqueta de 600 reais como "moda acessível". dicona; se você está prestes a se endividar pra comprar uma jaqueta, não é acessível e você não tá precisando (e nem podendo, diga-se de passagem). em segundo lugar, eu falhei em considerar que nossa relação com nosso corpo muda ao longo do tempo, assim como o próprio corpo, assim como nossos gostos, assim como cortes e modelagens, e é impossível nuca mais comprar roupa nenhuma pelo simples fato de que às vezes nossas mudanças internas não se refletem mais nas nossas roupas. (e às vezes as mudanças externas também não se adequam às nossas vestimentas: imagina hoje em dia a mulherada pegando busão e indo pra firma de corset? point being: é necessário renovar)

hoje penso nesse programa de outra maneira, e entendo tudo que aprendi sobre roupa, estilo e auto-estima assistindo um reality show:

aprendi que é preciso vestir o corpo que tenho agora, não o corpo que gostaria de ter;
aprendi a usar cor, estampa e textura pra criar interesse visual até em roupas básicas;
aprendi sobre proporções de estampas, contraste de cores, comprimentos apropriados, diferentes tipos de decote e cortes de calça jeans, diferentes alturas de cós, a diferença de uma calça com pregas e uma sem pregas, sobre o efeito de um sapato com a ponta mais alongada...
aprendi que roupa é nossa ferramenta pra nos sentirmos bem, confiantes, seguras - e não é o consumo desenfreado das roupas que faz isso, nem o comprar tendências, nem o renovar o guarda-roupa a cada três meses. é simplesmente ter roupas que a gente ame e use, saber usar as roupas que temos e saber comprar roupas corretamente.

e, sim, foi um programa no qual mulheres recebiam 5 mil dólares pra gastar com roupa que aprendi que é preciso se conhecer intimamente pra conseguir superar nossas inseguranças e nos sentirmos bem nas nossas roupas - e no nosso corpo. é um exercício profundo de auto-conhecimento, de entender realmente o que você gosta e não gosta, o que faz te sentir bem, o que valoriza seu corpo e o que é apropriado pra sua rotina. conseguir entender que aquela tendência que eu acho linda de morrer e todas as moças cool do instagram tão usando não é ideal pra mim por mais que ela me agrade visualmente é demais. 

quando você compreende seu corpo (e isso significa compreender inclusive as partes que achamos imperfeitas) e enxerga a si mesma, é possível passar por uma pilha de todas as tendências, todos os must-haves do momento, e selecionar: isso parece lindo, mas sei que não uso essas cores OU esse tipo de estampa OU essa silhueta de blusa, então isso não serve pra mim. já essa outra peça me agrada, me faz sentir bem e funciona com minhas outras roupas. e isso, meus caros, quem disse  primeiro foi a stacy london. na tv. 

uma outra coisa que aprendi com os anos é que moda é um sistema de produção de roupa que vive de dinheiro e de nos fazer sentir mal. moda se alimenta das nossas inseguranças pra fazer a gente consumir. já roupa e estilo são ferramentas pra gente formar nossa identidade como indivíduos e como seres sociais. e é por isso que a gente se apaixonou, inicialmente, pelos blogs de moda e de look do dia. a gente tava se conectando, finalmente, com meninas reais, que usavam moda real do jeito delas. cada uma com sua profissão, morando em sua cidade, com rotinas diferentes, climas diferentes, e gostos diferentes. era legal ver isso, essa pluralidade de estilos de pessoas reais ao redor do mundo. era legal aprender com elas, me inspirar com elas.

de repente eu tava gastando boa parte do meu dinheiro em roupa que parecia a roupa daquela blogueira x. de repente as lojas e marcas começaram a perceber que o grande consumidor de roupa (nós, mulheres normais) estava sendo mais influenciado por blogs do que por propagandas ou revistas. a gente queria comprar e usar aquelas roupas, as dos blogs, e as lojas começaram a nos oferecer isso. de repente eu tinha várias e várias roupas que simplesmente não ornavam com meu dia-a-dia e não eram práticas pros lugares que eu frequentava ou pra como eu me movimentava pela cidade. as blogueiras seguiam postando seus looks, sempre novos, sempre lindos, e olha só, clicando aqui você tem 10% de desconto. 

aquelas meninas reais, usando moda real em suas vidas reais, passaram a não ser tão reais assim. elas passaram a ser veículos de consumo - elas estavam nos convencendo a comprar. mais roupas, mais maquiagens, novos sapatos, mais uma jaqueta, e essa gargantilha (digitando o código desconto20 dá pra comprar uma igual bem baratinho!). e assim sem ninguém perceber logo de cara, os blogs de moda começaram a fazer o mesmo bullying que as propagandas fazem há tanto tempo - o de nos fazer sentir insuficientes: não tão legais, não tão na moda, não tão modernas, ou ricas, ou estilosas como aquela blogueira. a blogueira vida real de quem a gente se sentia tão próxima, ela também tava lucrando das nossas inseguranças. 


lucrar das inseguranças dos outros e alimentar uma indústria de consumo doentio e criação de quantidades enormes de lixo, incentivar suas leitoras a comprar peças de roupas e acessórios novos, sem falar sobre descarte de roupas antigas, reuso, reformas, sem falar sobre o que fazer quando você tem mais roupas do que vai vestir em uma vida, sem falar sobre inteligência financeira, sem falar sobre cuidado com a roupa (e com qualquer coisa que a gente compra: foi feito por gente, por pessoas reais, essa coisa que você comprou só existe porque alguém em algum lugar trabalhou para produzi-la, isso não é descartável, isso vale: vale tempo, vale esforço humano, vale dinheiro), tudo isso, a meu ver, é um insulto pra quem genuinamente e profundamente gosta de roupa.

quem gosta de roupa não trata o consumo dela com tanto desdém. quem gosta de roupa entende que cada costura em uma peça tem suor e tem motivo. quem gosta de roupa cuida do que tem, presta atenção no que compra, e usa por muito tempo o que possuiu. quem gosta de roupa não incentiva os outros, que também gostam de roupa, a comprar peças de baixa qualidade, preço baixo, de origem duvidosa e estética efêmera. quem gosta de roupa fala sobre usar ao máximo potencial as peças que você tem. quem gosta de roupa discursa sobre se vestir pra você e não para os outros. quem gosta de roupa quer peças que sejam atemporais (na medida do possível) e digam algo sobre quem somos.


blogs de gente que gosta de roupa, mesmo, são blogs que vão te ensinar a escolher o melhor tecido - o de mais qualidade, melhor preço, maior durabilidade e conforto. em blogs de quem gosta de roupa, você vai ler sobre como se vestir se você tem poder aquisitivo menor do que as pessoas dos seus ambientes. ou como se vestir pra uma entrevista de emprego se você é cadeirante. ou sobre como lidar com proporções e silhuetas se você está acima do peso. agora, se as blogueiras que você segue tão te fazendo sentir mais pobre, mais feia, menos antenada.... essas blogueiras não querem te ajudar. elas querem lucrar com você.

e pra facilitar, vamos sempre deduzir que a pessoas tá querendo lucrar com a gente. é por essa entre outras razões que eu repito o apelo da vivienne westwood: não compre nada. não clica no link da propaganda do seu blog favorito. não use o cupom seguidorafofa20 pra ganhar um descontinho naquele sapato que tá toooodo mundo usando (dicona: não tá todo mundo usando)

lembro com muita nitidez de quando entendi que no mundo dos blogs é tudo bullshit: eu lia com frequência o blog de uma moça de um país frio da europa. num post de q&a, uma leitora perguntou que tipo de música ela escutava, e ela respondeu que não era muito ligada em música, não tinha preferências e nem sequer escutava muita música. não era algo com o qual ela se relacionava. alguns meses depois, a moçoila me posta uma foto com look incrível e fones de ouvido gigantes e fashion, dizendo que os fones da marca tal eram de ótima qualidade, tavam sendo os grandes companheiros dela nos últimos tempos e com eles dava pra ela ouvir as músicas favoritas delas em qualquer lugar com ótima qualidade, e se você clicar aqui dá pra escolher o seu com um descontinho mara!


eu juro, gente, que a menina não gostava de música mas tava fazendo propaganda de fone de ouvido. sem sequer dizer que era propaganda, porque né, já tá enganando as leitoras de qualquer jeito, vamo enganar bonito, vamo enganar por completo.

stacie london me ensinou: se você não tem certeza se gosta, não compre. e se tem alguém tentando te convencer a comprar, se pergunte: qual é a agenda por trás disso? isso serve praquele vendedor insistente da loja - que ganha por comissão e quer que você saia de lá com qualquer merda, desde que gaste dinheiro - e serve praquela blogueira mara que tá postando resenha de produto e oferecendo cupom de desconto pras leitoras - ela também tá sendo paga pra te vender coisa.

quando a gente aprende a comprar o que QUEREMOS ao invés do que alguém decidiu que a gente precisa, pouco a pouco mudamos a indústria - que para de produzir coisas pra nos convencer a comprar, e passa a produzir coisas que genuinamente queremos comprar. isso quer dizer que a produção de bens materiais descartáveis diminui e a qualidade dos bens de consumo aumenta - porque o consumidor está mais atento e mais exigente. mudar a maneira de consumir muda todo o resto, e eu já falei disso aqui, aqui e aqui - e a stacy london também falou.

nos livrar do bullying do consumo excessivo diminui o ruído e nos permite olhar pra nós mesmas - e é olhando pra nós mesmas que conseguimos aprender sobre nosso estilo: o que funciona pra mim? que cores eu gosto de usar? que tecidos? quais são as proporções ideais pras minhas roupas? tudo isso faz a gente se olhar diferente no espelho, se amar mais, e querer menos ser parecida com as outras pessoas; a blogueira cheia das roupas novas, a modelo, a atriz..... querer ser como a gente é, esse é o objetivo de se vestir bem, e quando a gente alcança isso, nem dá mais vontade de comprar coisa o tempo todo, muito menos a tendência momentânea de preço baixo e qualidade duvidosa.

a pessoa que tá pensando em você e cuidando da sua auto-estima não é a mesma pessoa que faz você querer comprar coisa nova toda semana. precisamos consumir nossas mídias com cuidado e, sempre, desconfiança. 


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pra saber mais, recomendo:

3 comentários:

Fernanda Alves disse...

COMO ASSIM NÃO TEM MIL PESSOAS COMENTANDO ESSE POST INCRÍVEL?
ONDE ELAS ESTÃO?
Eita.
Que post foda, mel. Eu, que provavelmente já fui uma dessas pessoas (consumista, sou sim, olha o meu nick. [ainda se fala "nick?"]) e hoje concordo muito com você. Mas olha, essa visão que você tem requer um amadurecimento que leva tempo, autoconhecimento, um monte de coisas que demora um tempo pra gente ter.

Mas, repetindo: estás certíssima.

Anônimo disse...

Mel do céu, não tenho nada a dizer, apenas sentir.

Quanta coisa pra pensar.

Beijos.

Bia

Anônimo disse...

Muito bom... só li verdades