repete roupa!: o que eu penso quando penso em farm

segunda-feira, 30 de julho de 2018

o que eu penso quando penso em farm


apropriação cultural, más condições de trabalho, preços altos, plágio e umas estampas brasileñas cariocas levemente cafonas - isso descreve muitas marcas além da farm, mas é o que eu penso quando penso nela.

eu falo pouco da farm, primeiro porque é uma marca que eu não consumo (repeti um vestido da farm ano passado, e aí devolvi pra minha irmã pra nunca mais), segundo porque há muito tempo eu já não considerava o posicionamento deles alinhado com o que eu acredito. mas é impossível não reconhecer os esforços internos da marca ao ouvir as críticas e tentar ativamente mudar.

eles já foram acusados de usar referências, estampas e estéticas de culturas de minorias brasileiras mas só colocar mulheres brancas nas publicidades e nas lojas - hoje, nem 4 anos depois, eles tem um dos instagrams com mais diversidade nesse mundinho das muódas brasileiras - o que pode ser argumentado com: tá, mas e aí? que lindo ter índio, ter negra, ter mestiça, ter japa, ter gorda, ter magra na foto, mas como que tá lá dentro da empresa? quem tá ganhando dinheiro vendendo estampa inspirada na iemanjá? quem tá ganhando dinheiro pensando e criando a identidade visual da marca? e, né, a pergunta mais perguntada nos últimos tempos, quem é que tá fazendo essas roupas e quanto eles tão ganhando pra costurar uma blusinha que custa 198 reais?

essas e outras respostas, no próximo capítulo!

BRINKS

eu não sei responder a essas perguntas, mas eu tenho a impressão que se a gente for lá perguntar eles não apenas responderão como estarão dispostos a mudar o que tiver que mudar, caso sejam confrontados. e por que eu tenho essa impressão?

fui convidada pela farm, em conjunto com a reroupa e o instituto alinha, a participar de uma conversa sobre a cadeia de produção da marca e, em seguida, de uma oficina de costura com alguns retalhos de coleções passadas. esse é precisamente o trabalho que a reroupa faz com a farm: a partir das sobras tanto de tecidos quanto de peças de roupa de coleções antigas, novas coleções são criadas, dando novo destino a matéria-prima que estaria estacionada em galpões para todo o sempre.


no bate-papo deu pra entender um pouco da logística e tamanho da operação da farm: há coleções em que de 30 mil a 60 mil peças ficam paradas, e a empresa tá começando a pensar o que fazer com essas sobras. isso envolve mudar a relação da empresa inteira com como as roupas são feitas e vendidas, e esse não é um processo fácil.

parte dessas sobras foram usadas para duas coleções em parceria com a reroupa - poucas peças, preços altos, um negócio bem pouco acessível, sejamos honestos. mas ainda assim, que outra grande marca brasileira tá fazendo isso? por mim eu mandava parar de fazer tecido novo e estampa até usar tudo que tá estocado - mas é claro que não funciona assim por motivos de capitalismo, e dentro desse sistema mercadológico que dificulta tanto o pensar e fazer diferente, a farm tá fazendo o possível e trabalhando bastante numa mudança de mentalidade dentro da empresa.

isso significa não apenas olhar pras sobras e pensar em como reutilizá-las, mas também em entender o caminho todo da roupa - passando, é claro, pelos fornecedores e costureiros. aprendi no bate-papo que a farm tem mais ou menos 300 fornecedores por coleção, e o processo de identificar a todos e fazer com que todos eles tenham condições de trabalho e remuneração adequados é complicado. marcas como a zara usam essa desculpa pra, basicamente, deixar tudo como está. a farm decidiu mudar, também, a relação da empresa com essa parte da cadeia produtiva, com essas pessoas.

é aí que entra o instituto alinha - uma iniciativa que conecta oficinas e pequenas cooperativas de costureiros com marcas como a farm. as oficinas do alinha não são terceirizadas - a marca os contrata diretamente, com a segurança de que a oficina contratada seja um espaço apropriado pra trabalhar, com costureiros que são remunerados decentemente e trabalham horas adequadas - normalmente os costureiros são donos de suas próprias pequenas oficinas e nunca teriam a chance de mostrar seu trabalho e ter oportunidades em grandes empresas - ou teriam, mas com número absurdo de roupas pra fazer e péssima remuneração. 


a alinha, então certifica as peças que saem dessas oficinas. aí dá pra ir na farm e olhar na etiqueta - se tem a tag alinha, a roupa foi feita numa oficina certificada. pro volume de roupas que uma loja como a farm produz, ainda não é possível que tudo seja feito nessas oficinas - mas as coleções com a reroupa são produzidas com a alinha, e pouco a pouco a mudança chega em todas as coleções, né?

são passos pequenos pruma empresa monstro, mas quantas outras empresas monstro de moda tão demonstrando esse cuidado e ativamente fazendo algo pra serem menos nocivas? quantas marcas de alto padrão tão trazendo pras suas clientes - mulheres com poder aquisitivo alto, que consomem bastante roupa mas não consomem informação sobre moda sustentável - essa discussão sobre o problema de quem faz nossas roupas e pra onde elas vão quando a gente cansa delas?

ainda tem plágio, ainda tem o fato de que é roupa muito muito muito cara representando uma carioquice bem privilegiada, bem gentrificada, bem deslumbrada - mas o coração da marca, as pessoas que tão lá dentro pensando e repensando as dinâmicas da empresa, elas tão atentas às mudanças e aos problemas dessa indústria. e isso é muito mais do que a gente vê em qualquer outra marca do mesmo padrão da farm. 

(já as estampas eu acho breguinhas, gente, vocês me desculpem, mas é que eu não sou muito assim as brasilidades)

3 comentários:

Clarice disse...

Esse monte de orações adversativas no formato "lala... mas... lalala" me faz achar que tem uma tentativa de mostrar que a marca errou... mas... agora tá acertando. Eu inverteria todas pra puxar o peso: "talvez esteja buscando uma imagem de acerto... mas... erra bem mais há muito tempo". Acho que não tem nenhuma intenção bonita nessa suposta mudança. Tem só marketing e vontade de alcançar um outro público, expandir a marca pra quem, como nós, suas leitoras, consome brechó e se preocupa com a origem e o destino de nossas roupas. Eles continuam com o público que você caracterizou como deslumbrado (haha amei!), e também conquistam mais uma fatia. Sei lá, me convence não. Me dá mais aflição até uahauahhaha. Beijos, mel, amo seu blog e seu jeito de escrever <3

Lígia disse...

eu tenho um bode master e não compro farm há algum tempo por uma questão que tá além de todas essas que você elencou no texto: a grade de tamanhos. a farm não faz roupa pra mina gorda de propósito, porque quer continuar expressando essa carioquice magérrima deles. e quando eu digo gorda, eu nem tô falando de mim, que visto 44, 46, tô falando das minhas amigas que vestem 40, 42 e que nem o G cabe nelas. ou pior, algumas coleções atrás, a farm fez bodies, mas não fez G. simples assim, quem veste 42 não pode usar body. ah, vá se foder, né?
então eu tô com a clarice que comentou ali em cima, acho que marca tá só buscando mais uma fatia de mercado e também não me convence.

Heloiza disse...

Eu acho a farm uma marca que não me representa. E nem pretende. É propositalmente branca, magra, rica, carioca, um tipo de fetiche mesmo. Essa coisa rioetc, carioca lifestyle, excludente e elitista.